DA INTERVENÇÃO
DOS ESPÍRITOS NO MUNDO CORPORAL
1. Vêem os Espíritos tudo o que fazemos?
“Podem ver, pois que constantemente vos rodeiam. Cada um, porém, só vê aquilo
a que dá atenção. Não se ocupam com o que lhes é indiferente.”
2. Podem os Espíritos conhecer os nossos mais
secretos pensamentos?
“Muitas vezes chegam a conhecer o que desejaríeis ocultar de vós mesmos. Nem
atos, nem pensamentos se lhes podem dissimular.” a) - Assim, mais fácil nos
seria ocultar de uma pessoa viva qualquer coisa, do que a esconder dessa mesma
pessoa depois de morta? “Certamente. Quando vos julgais muito ocultos, é comum
terdes ao vosso lado uma multidão de Espíritos que vos observam.”
3. Que pensam de nós os Espíritos que nos cercam e
observam?
“Depende. Os levianos riem das pequenas partidas que vos pregam e zombam das
vossas impaciências. Os Espíritos sérios se condoem dos vossos reveses e
procuram ajudar-vos.” Influência oculta dos Espíritos em nossos pensamentos e
atos."
4. Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em
nossos atos?
“Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto, que, de ordinário, são
eles que vos dirigem.”
5. De par com os pensamentos que nos são próprios,
outros haverá que nos sejam sugeridos?
“Vossa alma é um Espírito que pensa. Não ignorais que, frequentemente, muitos
pensamentos vos acodem a um tempo sobre o mesmo assunto, não raro, contrários
uns dos outros. Pois bem! No conjunto deles, estão sempre de mistura os vossos
com os nossos. Daí a incerteza em que vos vedes. É que tendes em vós duas ideias
a se combaterem.”
6. Como havemos de distinguir os pensamentos que nos
são próprios dos que nos são sugeridos?
“Quando um pensamento vos é sugerido, tendes a impressão de que alguém vos
fala. Geralmente, os pensamentos próprios são os que acodem em primeiro lugar.
Afinal, não vos é de grande interesse estabelecer essa distinção. Muitas vezes,
é útil que não saibais fazê-la. Não a fazendo, obra o homem com mais liberdade.
Se se decide pelo bem, é voluntariamente que o pratica; se toma o mau caminho,
maior será a sua responsabilidade.”
7. É sempre de dentro de si mesmos que os homens
inteligentes e de gênio tiram suas ideias?
“Algumas vezes, elas lhes vêm do seu próprio Espírito, porém, de outras
muitas, lhes são sugeridas por Espíritos que os julgam capazes de compreendê-las
e dignos de vulgarizá-las. Quando tais homens não as acham em si mesmos, apelam
para a inspiração. Fazem assim, sem o suspeitarem, uma verdadeira evocação.” Se
fora útil que pudéssemos distinguir claramente os nossos pensamentos próprios
dos que nos são sugeridos, Deus nos houvera proporcionado os meios de o
conseguirmos, como nos concedeu o de diferençarmos o dia da noite. Quando uma
coisa se conserva imprecisa, é que convém assim aconteça.
8. Diz-se comumente ser sempre bom o primeiro
impulso. É exato?
“Pode ser bom, ou mau, conforme a natureza do Espírito encarnado. É sempre
bom naquele que atende às boas inspirações.” 464. Como distinguirmos se um
pensamento sugerido procede de um bom Espírito ou de um Espírito mau? “Estudai o
caso. Os bons Espíritos só para o bem aconselham. Compete-vos discernir.”
9. Com que fim os Espíritos imperfeitos nos induzem
ao mal?
“Para que sofrais como eles sofrem.” a) - E isso lhes diminui os sofrimentos?
“Não; mas fazem-no por inveja, por não poderem suportar que haja seres felizes.”
b) - De que natureza é o sofrimento que procuram infligir aos outros? “Os que
resultam de ser de ordem inferior a criatura e de estar afastada de Deus.”
10. Por que permite Deus que Espíritos nos excitem
ao mal?
“Os Espíritos imperfeitos são instrumentos próprios a por em prova a fé e a
constância dos homens na prática do bem. Como Espírito que és, tens que
progredir na ciência do infinito. Daí o passares pelas provas do mal, para
chegares ao bem. A nossa missão consiste em te colocarmos no bom caminho. Desde
que sobre ti atuam influências más, é que as atrais, desejando o mal; porquanto
os Espíritos inferiores correm a te auxiliar no mal, logo que desejes
praticá-lo. Só quando queiras o mal, podem eles ajudar-te para a prática do mal.
Se fores propenso ao assassínio, terás em torno de ti uma nuvem de Espíritos a
te alimentarem no íntimo esse pendor. Mas outros também te cercarão,
esforçando-se por te influenciarem para o bem, o que restabelece o equilíbrio da
balança e te deixa senhor dos teus atos.” É assim que Deus confia à nossa
consciência a escolha do caminho que devamos seguir e a liberdade de ceder a uma
ou outra das influências contrárias que se exercem sobre nós."
11. Pode o homem eximir-se da influência dos
Espíritos que procuram arrastá-lo ao mal?
“Pode, visto que tais Espíritos só se apegam aos que, pelos seus desejos, os
chamam, ou aos que, pelos seus pensamentos, os atraem.”
12. Renunciam às suas tentativas os Espíritos cuja
influência a vontade do homem repele?
“Que querias que fizessem? Quando nada conseguem, abandonam o campo.
Entretanto, ficam à espreita de um momento propício, como o gato que tocaia o
rato.”
13. Por que meio podemos neutralizar a influência
dos maus Espíritos?
“Praticando o bem e pondo em Deus toda a vossa confiança, repelireis a
influência dos Espíritos inferiores e aniquilareis o império que desejam ter
sobre vós. Guardai-vos de atender às sugestões dos Espíritos que vos suscitam
maus pensamentos, que sopram a discórdia entre vós outros e que vos insuflam as
paixões más. Desconfiai especialmente dos que vos exaltam o orgulho, pois que
esses vos assaltam pelo lado fraco. Essa a razão por que Jesus, na oração
dominical, vos ensinou a dizer: “Senhor! Não nos deixes cair em tentação, mas
livra-nos do mal.”
14. Os Espíritos, que ao mal procuram induzir-nos e
que põem assim em prova a nossa firmeza no bem, procedem desse modo cumprindo
missão? E, se assim é, cabe-lhes alguma responsabilidade?
“A nenhum Espírito é dada a missão de praticar o mal. Aquele que o faz fá-lo
por conta própria, sujeitando-se, portanto, às consequências. Pode Deus
permitir-lhe que assim proceda, para vos experimentar; nunca, porém, lhe
determina tal procedimento. Compete-vos, pois repeti-lo.”
15. Quando experimentamos uma sensação de angústia,
de ansiedade indefinível, ou de íntima satisfação, sem que lhe conheçamos a
causa, devemos atribuí-la unicamente a uma disposição física?
“É quase sempre efeito das comunicações em que inconscientemente entrais com os
Espíritos, ou da que com elas tivestes durante o sono.”
16. Os Espíritos que procuram atrair-nos para o mal
se limitam a aproveitar as circunstâncias em que nos achamos, ou podem também
criá-las?
“Aproveitam as circunstâncias ocorrentes, mas também costumam criá-las,
impelindo-vos, mau grado vosso, para aquilo que cobiçais. Assim, por exemplo,
encontra um homem, no seu caminho, certa quantia. Não penses tenham sido os
Espíritos que a trouxeram para ali. Mas, eles podem inspirar ao homem a ideia de
tomar aquela direção e sugerir-lhe depois a de se apoderar da importância
achada, enquanto outros lhe sugerem a de restituir o dinheiro ao seu legítimo
dono. O mesmo se dá com relação a todas as demais tentações.”
17. Pode um Espírito tomar temporariamente o
invólucro corporal de uma pessoa viva, isto é, introduzir-se num corpo animado e
obrar em lugar do outro que se acha encarnado neste corpo?
“O Espírito não entra em um corpo como entras numa casa. Identifica-se com um
Espírito encarnado, cujos defeitos e qualidades sejam os mesmos que os seus, a
fim de obrar conjuntamente com ele. Mas, o encarnado é sempre quem atua,
conforme quer, sobre a matéria de que se acha revestido. Um Espírito não pode
substituir-se ao que está encarnado, por isso que este terá que permanecer
ligado ao seu corpo até ao termo fixado para sua existência material.”
18. Desde que não há possessão propriamente dita,
isto é, coabitação de dois Espíritos no mesmo corpo, pode a alma ficar na
dependência de outro Espírito, de modo a se achar subjugada ou obsidiada ao
ponto de a sua vontade vir a achar-se, de certa maneira, paralisada?
“Sem dúvida, e são esses os verdadeiros possessos. Mas, é preciso saibas que
essa dominação não se efetua nunca sem que aquele que a sofre o consinta, quer
por sua fraqueza, quer por desejá-la. Muitos epilépticos ou loucos, que mais
necessitavam de médico que de exorcismos, têm sido tomados por possessos.” O
vocábulo possesso, na sua acepção vulgar, supõe a existência de demônios, isto
é, de uma categoria de seres maus por natureza, e a coabitação de um desses
seres com a alma de um indivíduo, no seu corpo. Pois que, nesse sentido, não há
demônios e que dois Espíritos não podem habitar simultaneamente o mesmo corpo,
não há possessos na conformidade da ideia a que esta palavra se acha associada.
O termo possesso só se deve admitir como exprimindo a dependência absoluta em
que uma alma pode achar-se com relação a Espíritos imperfeitos que a subjuguem.
19. Pode alguém por si mesmo afastar os maus
Espíritos e libertar-se da dominação deles?
“Sempre é possível, a quem quer que seja, subtrair-se a um jugo, desde que
com vontade firme o queira.”
20. Mas, não pode acontecer que a fascinação
exercida pelo mau Espírito seja de tal ordem que o subjugado não a perceba?
Sendo assim, poderá uma terceira pessoa fazer que cesse a sujeição da outra? E,
nesse caso, qual deve ser a condição dessa terceira pessoa?
“Sendo ela um homem de bem, a sua vontade poderá ter eficácia, desde que
apele para o concurso dos bons Espíritos, porque, quanto mais digna for a
pessoa, tanto maior poder terá sobre os Espíritos imperfeitos, para afastá-los,
e sobre os bons, para os atrair. Todavia, nada poderá, se o que estiver
subjugado não lhe prestar o seu concurso. Há pessoas a quem agrada uma
dependência que lhes lisonjeia os gostos e os desejos. Qualquer, porém, que seja
o caso, aquele que não tiver puro o coração nenhuma influência exercerá. Os bons
Espíritos não lhe atendem ao chamado e os maus não o temem.”
21. As fórmulas de exorcismo têm qualquer eficácia
sobre os maus Espíritos?
“Não. Estes últimos riem e se obstinam, quando vêem alguém tomar isso a
sério.”
22. Pessoas há, animadas de boas intenções e que,
nada obstante, não deixam de ser obsidiadas. Qual, então, o melhor meio de nos
livrarmos dos Espíritos obsessores?
“Cansar-lhes a paciência, nenhum valor lhes dar às sugestões, mostrar-lhes
que perdem o tempo. Em vendo que nada conseguem, afastam-se.”
23. A prece é meio eficiente para a cura da
obsessão?
“A prece é em tudo um poderoso auxílio. Mas, crede que não basta que alguém
murmure algumas palavras, para que obtenha o que deseja. Deus assiste os que
obram, não os que se limitam a pedir. É, pois, indispensável que o obsidiado
faça, por sua parte, o que se torne necessário para destruir em si mesmo a causa
da atração dos maus Espíritos.”
24. Que se deve pensar da expulsão dos demônios,
mencionada no Evangelho?
“Depende da interpretação que se lhe dê. Se chamais demônio ao mau Espírito
que subjugue um indivíduo, desde que se lhe destrua a influência, ele terá sido
verdadeiramente expulso. Se ao demônio atribuirdes a causa de uma enfermidade,
quando a houverdes curado direis com acerto que expulsastes o demônio. Uma coisa
pode ser verdadeira ou falsa, conforme o sentido que empresteis às palavras. As
maiores verdades estão sujeitas a parecer absurdos, uma vez que se atenda apenas
à forma, ou que se considere como realidade a alegoria. Compreendei bem isto e
não o esqueçais nunca, pois que se presta a uma aplicação geral.”
25. Desempenham os Espíritos algum papel nos
fenômenos que se dão com os indivíduos chamados convulsionários?
“Sim e muito importante, bem como o magnetismo, que é a causa originária de
tais fenômenos. O charlatanismo, porém, os tem amiúde explorado e exagerado, de
sorte a lançá-los ao ridículo.”
a) De que natureza são, em geral, os Espíritos que
concorrem para a produção desta espécie de fenômenos?
“Pouco elevada. Supondes que Espíritos superiores se deleitem com tais
coisas?”
26. Como é que sucede estender-se subitamente a toda
uma população o estado anormal dos convulsionários e dos que sofrem de crises
nervosas?
“Efeito de simpatia. As disposições morais se comunicam mui facilmente, em
certos casos. Não és tão alheio aos efeitos magnéticos que não compreendas isto
e a parte que alguns Espíritos naturalmente tomam no fato, por simpatia com os
que os provocam.” Entre as singulares faculdades que se notam nos
convulsionários, algumas facilmente se reconhecem, de que numerosos exemplos
oferecem o sonambulismo e o magnetismo, tais como, além de outras, a
insensibilidade física, a leitura do pensamento, a transmissão das dores, por
simpatia, etc. Não há, pois, duvidar de que aqueles em quem tais crises se
manifestam estejam numa espécie de sonambulismo desperto, provocado pela
influência que exercem uns sobre os outros. Eles são ao mesmo tempo
magnetizadores e magnetizados, inconscientemente.
27. Qual a causa da insensibilidade física que se
observa em alguns convulsionários, assim como em outros indivíduos submetidos às
mais atrozes torturas?
“Em alguns é, exclusivamente, efeito do magnetismo que atua sobre o sistema
nervoso, do mesmo modo que certas substâncias. Em outros, a exaltação do
pensamento embota a sensibilidade. Dir-se-ia que nestes a vida se retirou do
corpo, para se concentrar toda no Espírito. Não sabeis que, quando o Espírito
está vivamente preocupado com uma coisa, o corpo nada sente, nada vê e nada
ouve?” A exaltação fanática e o entusiasmo hão proporcionado, em casos de
suplícios, múltiplos exemplos de uma calma e de um sangue frio que não seriam
capazes de triunfar de uma dor aguda, senão admitindo-se que a sensibilidade se
acha neutralizada, como por efeito de um anestésico. Sabe-se que, no ardor da
batalha, combatentes há que não se apercebem de que estão gravemente feridos, ao
passo que, em circunstâncias ordinárias, uma simples arranhadura os poria
trêmulos. Visto que esses fenômenos dependem de uma causa física e da ação de
certos Espíritos, lícito se torna perguntar como há podido uma autoridade
pública fazê-los cessar em alguns casos. Simples a razão. Meramente secundária é
aqui a ação dos Espíritos, que nada mais fazem do que aproveitar-se de uma
disposição natural. A autoridade não suprimiu essa disposição, mas a causa que a
entretinha e exaltava. De ativa que era, passou esta a ser latente. E a
autoridade teve razão para assim proceder, porque do fato resultava abuso e
escândalo. Sabe-se, demais, que semelhante intervenção nenhum poder
absolutamente tem, quando a ação dos Espíritos é direta e espontânea. Afeição
que os Espíritos votam a certas pessoas
28. Os Espíritos se afeiçoam de preferência a certas
pessoas?
“Os bons Espíritos simpatizam com os homens de bem, ou suscetíveis de se
melhorarem. Os Espíritos inferiores com os homens viciosos, ou que podem
tornar-se tais. Daí suas afeições, como consequência da conformidade dos
sentimentos.”
29. É exclusivamente moral a afeição que os
Espíritos votam a certas pessoas?
“A verdadeira afeição nada tem de carnal; mas, quando um Espírito se apega a
uma pessoa, nem sempre o faz só por afeição. À estima que essa pessoa lhe
inspira pode agregar-se das paixões humanas.”
30. Interessam-se os Espíritos pelas nossas
desgraças e pela nossa prosperidade? Afligem-se os que nos querem bem com os
males que padecemos durante a vida?
“Os bons Espíritos fazem todo o bem que lhes é possível e se sentem ditosos
com as vossas alegrias. Afligem-se com os vossos males, quando os não suportais
com resignação, porque nenhum benefício então tirais deles, assemelhando-vos, em
tais casos, ao doente que rejeita a beberagem amarga que o há de curar.”
31. Dentre os nossos males, de que natureza são os
de que mais se afligem os Espíritos por nossa causa? Serão os males físicos ou
os morais?
“O vosso egoísmo e a dureza dos vossos corações. Daí decorre tudo o mais.
Riem-se de todos esses males imaginários que nascem do orgulho e da ambição.
Rejubilam com os que redundam na abreviação do tempo das vossas provas."
Sabendo ser transitória a vida corporal e que as
tribulações que lhe são inerentes constituem meios de alcançarmos melhor estado,
os Espíritos mais se afligem pelos nossos males devidos a causas de ordem moral,
do que pelos nossos sofrimentos físicos, todos passageiros. Pouco se incomodam
com as desgraças que apenas atingem as nossas ideias mundanas, tal qual fazemos
com as mágoas pueris das crianças. Vendo nas amarguras da vida um meio de nos
adiantarmos, os Espíritos as consideram como a crise ocasional de que resultará
a salvação do doente. Compadecem-se dos nossos sofrimentos, como nos
compadecemos dos de um amigo. Porém, enxergando as coisas de um ponto de vista
mais justo, os apreciam de um modo diverso do nosso. Então, ao passo que os bons
nos levantam o ânimo no interesse do nosso futuro, os outros nos impelem ao
desespero, objetivando comprometer-nos. (Allan Kardec)
32. Os parentes e amigos, que nos precederam na
outra vida, maior simpatia nos votam do que os Espíritos que nos são estranhos?
“Sem dúvida e quase sempre vos protegem como Espíritos, de acordo com o poder
de que dispõem.”
a) - São sensíveis à afeição que lhes conservamos?
“Muito sensíveis, mas esquecem-se dos que os olvidam.”
33. Há Espíritos que se liguem particularmente a um
indivíduo para protegê-lo?
“Há o irmão espiritual, o que chamais o bom Espírito ou o bom gênio.”
34. Que se deve entender por anjo de guarda ou anjo
guardião?
“O Espírito protetor, pertencente a uma ordem elevada.”
35. Qual a missão do Espírito protetor?
“A de um pai com relação aos filhos; a de guiar o seu protegido pela senda do
bem, auxiliá-lo com seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições, levantar-lhe o
ânimo nas provas da vida.”
36. O Espírito protetor se dedica ao indivíduo desde
o seu nascimento?
“Desde o nascimento até a morte e muitas vezes o acompanha na vida espírita,
depois da morte, e mesmo através de muitas existências corpóreas, que mais não
são do que fases curtíssimas da vida do Espírito.”
37. É voluntária ou obrigatória a missão do Espírito
protetor?
“O Espírito fica obrigado a vos assistir, uma vez que aceitou esse encargo.
Cabe-lhe, porém, o direito de escolher seres que lhe sejam simpáticos. Para
alguns, é um prazer; para outros, missão ou dever.”
a) - Dedicando-se a uma pessoa, renuncia o Espírito
a proteger outros indivíduos?
“Não; mas protege-os menos exclusivamente.”
38. O Espírito protetor fica fatalmente preso à
criatura confiada à sua guarda?
“Freqüentemente sucede que alguns Espíritos deixam suas posições de
protetores para desempenhar diversas missões. Mas, nesse caso, outros os
substituem.”
39. Poderá dar-se que o Espírito protetor abandone o
seu protegido, por se lhe mostrar este rebelde aos conselhos?
“Afasta-se, quando vê que seus conselhos são inúteis e que mais forte é, no
seu protegido, a decisão de submeter-se à influência dos Espíritos inferiores.
Mas, não o abandona completamente e sempre se faz ouvir. É então o homem quem
tapa os ouvidos. O protetor volta desde que este o chame. “
É uma doutrina, esta,
dos anjos guardiões, que, pelo seu encanto e doçura, devera converter os mais
incrédulos. Não vos parece grandemente consoladora a ideia de terdes sempre
junto de vós seres que vos são superiores, prontos sempre a vos aconselhar e
amparar, a vos ajudar na ascensão da abrupta montanha do bem; mais sinceros e
dedicados amigos do que todos os que mais intimamente se vos liguem na Terra?
Eles se acham ao vosso lado por ordem de Deus. Foi Deus quem aí os colocou e, aí
permanecendo por amor de Deus, desempenham bela, porém penosa missão. Sim, onde
quer que estejais, estarão convosco. Nem nos cárceres, nem nos hospitais, nem
nos lugares de devassidão, nem na solidão, estais separados desses amigos a quem
não podeis ver, mas cujo brando influxo vossa alma sente, ao mesmo tempo que
lhes ouve os ponderados conselhos. “Ah! se conhecêsseis bem esta verdade! Quanto
vos ajudaria nos momentos de crise! Quanto vos livraria dos maus Espíritos! Mas,
oh! Quantas vezes, no dia solene, não se verá esse anjo constrangido a vos
observar: “Não te aconselhei isto? Entretanto, não o fizeste. Não te mostrei o
abismo? Contudo, nele te precipitaste! Não fiz ecoar na tua consciência a voz da
verdade? Preferiste, no entanto, seguir os conselhos da mentira!” Oh! Interrogai
os vossos anjos guardiões; estabelecei entre eles e vós essa terna intimidade
que reina entre os melhores amigos. Não penseis em lhes ocultar nada, pois que
eles têm o olhar de Deus e não podeis enganá-los. Pensai no futuro; procurai
adiantar-vos na vida presente. Assim fazendo, encurtareis vossas provas e mais
felizes tornareis as vossas existências. Vamos, homens, coragem! De uma vez por
todas, lançai para longe todos os preconceitos e ideias preconcebidas. Entrai na
nova senda que diante dos passos se vos abre. Caminhai! Tendes guias, segui-los,
que a meta não vos pode faltar, porquanto essa meta é o próprio Deus. “Aos que
considerem impossível que Espíritos verdadeiramente elevados se consagrem a
tarefa tão laboriosa e de todos os instantes, diremos que nós vos influenciamos
as almas, estando embora muitos milhões de léguas distantes de vós. O espaço,
para nós, nada é, e não obstante viverem noutro mundo, os nossos Espíritos
conservam suas ligações com os vossos. Gozamos de qualidades que não podeis
compreender, mas ficai certos de que Deus não nos impôs tarefa superior às
nossas forças e de que não vos deixou sós na Terra, sem amigos e sem amparo.
Cada anjo de guarda tem o seu protegido, pelo qual vela, como o pai pelo filho.
Alegra-se, quando o vê no bom caminho; sofre, quando lhe ele despreza os
conselhos. “Não receeis fatigar-nos com as vossas perguntas. Ao contrário,
procurai estar sempre em relação conosco. Sereis assim mais fortes e mais
felizes. São essas comunicações de cada um com o seu Espírito familiar que fazem
sejam médiuns todos os homens, médiuns ignorados hoje, mas que se manifestarão
mais tarde e se espalharão qual oceano sem margens, levando de roldão a
incredulidade e a ignorância. Homens doutos, instruí os vossos semelhantes;
homens de talento, educai os vossos irmãos. Não imaginais que obra fazeis desse
modo: a do Cristo, a que Deus vos impõe. Para que vos outorgou Deus a
inteligência e o saber, senão para o repartirdes com os vossos irmãos, senão
para fazerdes que se adiantem pela senda que conduz à bem-aventurança, à
felicidade eterna?” São Luís, Santo Agostinho.
Nada tem de
surpreendente a doutrina dos anjos guardiões, a velarem pelos seus protegidos,
mau grado à distância que medeia entre os mundos. É, ao contrário, grandiosa e
sublime. Não vemos na Terra o pai velar pelo filho, ainda que de muito longe, e
auxiliá-lo com seus conselhos correspondendo-se com ele? Que motivo de espanto
haverá, então, em que os Espíritos possam, de um outro mundo, guiar os que,
habitantes da Terra, eles tomaram sob sua proteção, uma vez que, para eles, a
distância que vai de um mundo a outro é menor do que a que, neste planeta,
separa os continentes? Não dispõem, além disso, do fluido universal, que
entrelaça todos os mundos, tornando-os solidários; veículo imenso da transmissão
dos pensamentos, como o ar é, para nós, o da transmissão do som? (Allan Kardec)
40. O Espírito, que abandona o seu protegido, que
deixa de lhe fazer bem, pode fazer-lhe mal?
“Os bons Espíritos nunca fazem mal. Deixam que o façam aqueles que lhes tomam
o lugar. Costumais então lançar à conta da sorte as desgraças que vos
acabrunham, quando só as sofreis por culpa vossa.”
41. Pode um Espírito protetor deixar o seu protegido
à mercê de outro Espírito que lhe queira fazer mal?
“Os maus Espíritos se unem para neutralizar a ação dos bons. Mas, se o
quiser, o protegido dará toda a força ao seu protetor. Pode acontecer que o bom
Espírito encontre alhures uma boa-vontade a ser auxiliada. Aplica-se então em
auxiliá-la, aguardando que seu protegido lhe volte.”
42. Será por não poder lutar contra Espíritos
maléficos que um Espírito protetor deixa que seu protegido se transvie na vida?
“Não é porque não possa, mas porque não quer. E não quer, porque das provas
sai o seu protegido mais instruído e perfeito. Assiste-o sempre com seus
conselhos, dando-os por meio dos bons pensamentos que lhe inspira, porém que
quase nunca são atendidos. A fraqueza, o descuido ou o orgulho do homem são
exclusivamente o que empresta força aos maus Espíritos, cujo poder todo advém do
fato de lhes não opordes resistência.”
43. O Espírito protetor está constantemente com o
seu protegido? Não haverá alguma circunstância em que, sem abandoná-lo, ele o
perca de vista?
“Há circunstâncias em que não é necessário esteja o Espírito protetor junto
do seu protegido.”
44. Momentos haverá em que o Espírito deixe de
precisar, de então por diante, do seu protetor?
“Sim, quando ele atinge o ponto de poder guiar-se a si mesmo, como sucede ao
estudante, para o qual um momento chega em que não mais precisa de mestre. Isso,
porém, não se dá na Terra.”
45. Por que é oculta a ação dos Espíritos sobre a
nossa existência e por que, quando nos protegem, não o fazem de modo ostensivo?
“Se vos fosse dado contar sempre com a ação deles, não obraríeis por vós
mesmos e o vosso Espírito não progrediria. para que este possa adiantar-se,
precisa de experiência, adquirindo-a frequentemente à sua custa. É necessário
que exercite suas forças, sem o que, seria como a criança a quem não consentem
que ande sozinha. A ação dos Espíritos que vos querem bem é sempre regulada de
maneira que não vos tolha o livre-arbítrio, porquanto, se não tivésseis
responsabilidade, não avançaríeis na senda que vos há de conduzir a Deus. Não
vendo quem o ampara, o homem se confia às suas próprias forças. Sobre ele,
entretanto, vela o seu guia e, de tempos a tempos, lhe brada, advertindo-o do
perigo.”
46. O Espírito protetor, que consegue trazer ao bom
caminho o seu protegido, lucra algum bem para si?
“Constitui isso um mérito que lhe é levado em conta, seja para seu progresso,
seja para sua felicidade. Sente-se ditoso quando vê bem sucedidos os seus
esforços, o que representa, para ele, um triunfo, como triunfo é, para um
preceptor, os bons êxitos do seu educando.” a) - É responsável pelo mau
resultado de seus esforços? “Não, pois que fez o que de si dependia.”
47. Sofre o Espírito protetor quando vê que seu
protegido segue mau caminho, não obstante os avisos que dele recebe? Não há aí
uma causa de turbação da sua felicidade?
“Compungem-no os erros do seu protegido, a quem lastima. Tal aflição, porém,
não tem analogia com as angústias da paternidade terrena, porque ele sabe que há
remédio para o mal e que o que não se faz hoje, amanhã se fará.”
48. Poderemos sempre saber o nome do Espírito nosso
protetor, ou anjo de guarda?
“Como quereis saber nomes para vós inexistentes? Supondes que Espíritos só
há os que conheceis?”
a) - Como então o podemos invocar, se o não
conhecemos?
“Dai-lhe o nome que quiserdes, o de um Espírito superior que vos inspire
simpatia ou veneração. O vosso protetor acudirá ao apelo que com esse nome lhe
dirigirdes, visto que todos os bons Espíritos são irmãos e se assistem
mutuamente.”
49. Os protetores, que dão nomes conhecidos, sempre
são, realmente, os Espíritos das personalidades que tiveram esses nomes?
“Não. Muitas vezes, os que os dão são Espíritos simpáticos aos que de tais
nomes usaram na Terra e, a mando destes, respondem ao vosso chamamento. Fazeis
questão de nomes; eles tomam um que vos inspire confiança. Quando não podeis
desempenhar pessoalmente determinada missão, não costumais mandar que outro, por
quem respondeis como por vós mesmos, obre em vosso nome?”
50. Na vida espírita, reconheceremos o Espírito
nosso protetor?
“Decerto, pois não é raro que o tenhais conhecido antes de encarnardes.”
51. Pertencem todos os Espíritos protetores à classe
dos Espíritos elevados? Podem contar-se entre os de classe média? Um pai, por
exemplo, pode tornar-se o Espírito protetor de seu filho?
“Pode, mas a proteção pressupõe certo grau de elevação e um poder ou uma
virtude a mais, concedidos por Deus. O pai, que protege seu filho, também pode
ser assistido por um Espírito mais elevado.”
52. Os Espíritos que se achavam em boas condições ao
deixarem a Terra, sempre podem proteger os que lhes são caros e que lhes
sobrevivem?
“Mais ou menos restrito é o poder de que desfrutam. A situação em que se
encontram nem sempre lhes permite inteira liberdade de ação.”
53. Quando em estado de selvageria ou de
inferioridade moral, têm os homens, igualmente, seus Espíritos protetores? E,
assim sendo, esses Espíritos são de ordem tão elevada quanto a dos Espíritos
protetores de homens muito adiantados?
“Todo homem tem um Espírito que por ele vela, mas as missões são relativas ao
fim que visam. Não dais a uma criança, que está aprendendo a ler, um professor
de filosofia. O progresso dos Espírito familiar guarda relação com o do Espírito
protegido. Tendo um Espírito que vela por vós, podeis tornar-vos, a vosso turno,
o protetor de outro que vos seja inferior e os progressos que este realize, com
o auxílio que lhe dispensardes, contribuirão para o vosso adiantamento. Deus não
exige do Espírito mais do que comportem a sua natureza e o grau de elevação a
que já chegou.”
54. Quando o pai, que vela pelo filho, reencarna,
continua a vela por ele?
“Isso é mais difícil. Contudo, de certo modo o faz, pedindo, num instante de
desprendimento, a um Espírito simpático que o assista nessa missão. Demais, os
Espíritos só aceitam missões que possam desempenhar até ao fim.
“Encarnado, mormente em mundo
onde a existência é material, o Espírito se acha muito sujeito ao corpo para
poder dedicar-se inteiramente a outro Espírito, isto é, para poder assisti-lo
pessoalmente. Tanto assim que os que ainda se não elevaram bastante são também
assistidos por outros, que lhes estão acima, de tal sorte que, se por qualquer
circunstância um vem a faltar, outro lhe supre a falta.”
55. A cada indivíduo achar-se-á ligado, além do
Espírito protetor, um mau Espírito, com o fim de impeli-lo ao erro e de lhe
proporcionar ocasiões de lutar entre o bem e o mal?
“Ligado, não é o termo. É certo que os maus Espíritos procuram desviar do bom
caminho o homem, quando se lhes depara ocasião. Sempre, porém, que um deles se
liga a um indivíduo, fá-lo por si mesmo, porque conta ser atendido. Há então
luta entre o bom e o mau, vencendo aquele por quem o homem se deixe
influenciar.”
57. Podemos ter muitos Espíritos protetores?
“Todo homem conta sempre Espíritos, mais ou menos elevados, que com ele
simpatizam, que lhe dedicam afeto e por ele se interessam, como também tem junto
de si outros que o assistem no mal.”
58. Os Espíritos que conosco simpatizam atuam em
cumprimento de missão?
“Não raro, desempenham missão temporária; porém, as mais das vezes, são
apenas atraídos pela identidade de pensamentos e sentimentos, assim para o bem
como para o mal.”
a) - Parece lícito inferir-se daí que os Espíritos a
quem somos simpáticos podem ser bons ou maus, não?
“Sim, qualquer que seja o seu caráter, o homem sempre encontra Espíritos que
com ele simpatizem.”
58. Os Espíritos familiares são os mesmos a quem
chamamos Espíritos simpáticos ou Espíritos protetores?
“Há gradações na proteção e na simpatia. Dai-lhes os nomes que quiserdes. O
Espírito familiar é antes o amigo da casa.”
Das explicações acima e das
observações feitas sobre a natureza dos Espíritos que se afeiçoam ao homem,
pode-se deduzir o seguinte: O Espírito protetor, anjo de guarda, ou bom gênio é
o que tem por missão acompanhar o homem na vida e ajudá-lo a progredir. É sempre
de natureza superior, com relação ao protegido. Os Espíritos familiares se ligam
a certas pessoas por laços mais ou menos duráveis, com o fim de lhes serem
úteis, dentro dos limites do poder, quase sempre muito restrito, de que dispõe.
São bons, porém muitas vezes pouco adiantados e mesmo um tanto levianos.
Ocupam-se de boamente com as particularidades da vida íntima e só atuam por
ordem ou com permissão dos Espíritos protetores. Os Espíritos simpáticos são os
que se sentem atraídos para o nosso lado por afeições particulares e ainda por
uma certa semelhança de gostos e de sentimentos, tanto para o bem como para o
mal. De ordinário, a duração de suas relações se acha subordinada às
circunstâncias. O mau gênio é um Espírito imperfeito ou perverso, que se liga ao
homem para desviá-lo do bem. Obra, porém, por impulso próprio e não no
desempenho de missão. A tenacidade da sua ação está em relação direta com a
maior ou facilidade de acesso que encontre por parte do homem, que goza sempre
da liberdade de escutar-lhe a voz ou de lhe cerrar os ouvidos. (Allan
Kardec)
59. Que se há de pensar dessas pessoas que se ligam
a certos indivíduos para levá-los à perdição, ou para guiá-los pelo bom caminho?
“Efetivamente, certas pessoas exercem sobre outras uma espécie de fascinação
que parece irresistível. Quando isso se dá no sentido do mal, são maus
Espíritos, de que outros Espíritos também maus se servem para subjugá-las. Deus
permite que tal coisa ocorra para vos experimentar.”
60. Poderiam os nossos bom e mau gênios encarnar, a
fim de mais perto nos acompanharem na vida?
“Isso às vezes se dá. Porém, o que mais frequentemente se verifica é
encarregarem dessa missão outros Espíritos encarnados que lhes são simpáticos.”
61. Haverá Espíritos que se liguem a uma família
inteira para protegê-la?
“Alguns Espíritos se ligam aos membros de uma determinada família, que vivem
juntos e unidos pela afeição; mas, não acrediteis em Espíritos protetores do
orgulho das raças.”
62. Assim como são atraídos, pela simpatia, para
certos indivíduos, são-no igualmente os Espíritos, por motivos particulares,
para as reuniões de indivíduos?
“Os Espíritos preferem estar no meio dos que se lhes assemelham. Acham-se aí
mais à vontade e mais certos de serem ouvidos. É pelas suas tendências que o
homem atrai os Espíritos e isso quer esteja só, quer faça parte de um todo
coletivo, como uma sociedade, uma cidade, ou um povo. Portanto, as sociedades,
as cidades e os povos são, de acordo com as paixões e o caráter neles
predominantes, assistidos por Espíritos mais ou menos elevados. Os Espíritos
imperfeitos se afastam dos que os repelem. Segue-se que o aperfeiçoamento moral
das coletividades, como o dos indivíduos, tende a afastar os maus Espíritos e a
atrair os bons, que estimulam e alimentam nelas o sentimento do bem, como outros
lhes podem insuflar as paixões grosseiras.”
63. As aglomerações de indivíduos, como as
sociedades, as cidades, as nações, têm Espíritos protetores especiais?
“Têm, pela razão de que esses agregados são individualidades coletivas que,
caminhando para um objetivo comum, precisam de uma direção superior.”
64. Os Espíritos protetores das coletividades são de
natureza mais elevada do que os que se ligam aos indivíduos?
“Tudo é relativo ao grau de adiantamento, quer se trate de coletividades,
quer de indivíduos.”
65. Podem certos Espíritos auxiliar o progresso das
artes, protegendo os que às artes se dedicam?
“Há Espíritos protetores especiais e que assistem os que os invocam, quando
dignos dessa assistência. Que queres, porém, que façam com os que julgam ser o
que não são? Não lhes cabe fazer que os cegos vejam, nem que os surdos ouçam.”
Os antigos fizeram, desses
Espíritos, divindades especiais. As Musas não eram senão a personificação
alegórica dos Espíritos protetores das ciências e das artes, como os deuses
Lares e Penates simbolizavam os Espíritos protetores da família. Também
modernamente, as artes, as diferentes indústrias, as cidades, os países têm seus
patronos, que mais não são do que Espíritos superiores, sob várias designações.
Tendo todo homem Espíritos que com ele simpatizam, claro é que, nos corpos
coletivos, a generalidade dos Espíritos que lhes votam simpatia está em
proporção com a generalidade dos indivíduos; que os Espíritos estranhos são
atraídos para essas coletividades pela identidade dos gostos e das ideias; em
suma, que esses agregados de pessoas, tanto quanto os indivíduos, são mais ou
menos bem assistidos e influenciados, de acordo com a natureza dos sentimentos
dominantes entre os elementos que os compõem. Nos povos, determinam a atração
dos Espíritos os costumes, os hábitos, o caráter dominante e as leis, as leis
sobretudo, porque o caráter de uma nação se reflete nas suas leis. Fazendo
reinar em seu seio a justiça, os homens combatem a influência dos maus
Espíritos. Onde quer que as leis consagrem coisas injustas, contrárias à
Humanidade, os bons Espíritos ficam em minoria e a multidão, que aflui, dos maus
mantém a nação aferrada às suas ideias e paralisa as boas influências parciais,
que ficam perdidas no conjunto, como insuladas espigas entre espinheiros.
Estudando-se os costumes dos povos ou de qualquer reunião de homens, facilmente
se forma ideia da população oculta que se lhes imiscui no modo de pensar e nos
atos. Pressentimentos
(Allan Kardec)
66. O pressentimento é sempre um aviso do Espírito
protetor?
“É o conselho íntimo e oculto de um Espírito que vos quer bem. Também está na
intuição da escolha que se haja feito. É a voz do instinto. Antes de encarnar,
tem o Espírito conhecimento das fases principais de sua existência, isto é, do
gênero das provas a que se submete. Tendo estas caráter assinalado, ele
conserva, no seu foro íntimo, uma espécie de impressão de tais provas e esta
impressão, que é a voz do instinto, fazendo-se ouvir quando lhe chega o momento
de sofrê-las, se torna pressentimento.”
67. Acontecendo que os pressentimentos e a voz do
instinto são sempre algum tanto vagos, que devemos fazer, na incerteza em que
ficamos?
“Quando te achares na incerteza, invoca o teu bom Espírito, ou ora a Deus,
soberano senhor de todos, e Ele te enviará um de seus mensageiros, um de nós. ”
68. Os avisos dos Espíritos protetores objetivam
unicamente o nosso procedimento moral, ou também o proceder que devamos adotar
nos assuntos da vida particular?
“Tudo. Eles se esforçam para que vivais o melhor possível. Mas, quase sempre
tapais os ouvidos aos avisos salutares e vos tornais desgraçados por culpa
vossa.”
Os Espíritos protetores nos
ajudam com seus conselhos, mediante a voz da consciência que fazem ressoar em
nosso íntimo. Como, porém, nem sempre ligamos a isso a devida importância,
outros conselhos mais diretos eles nos dão, servindo-se das pessoas que nos
cercam. Examine cada um as diversas circunstâncias felizes ou infelizes de sua
vida e verá que em muitas ocasiões recebeu conselhos de que se não aproveitou e
que lhe teriam poupado muitos desgostos, se os houvera escutado. Influência dos
Espíritos nos acontecimentos da vida. (Allan Kardec)
59. Exercem os Espíritos alguma influência nos
acontecimentos da vida?
“Certamente, pois que vos aconselham.”
a) - Exercem essa influência por outra forma que não
apenas pelos pensamentos que sugerem, isto é, têm ação direta sobre o
cumprimento das coisas?
“Sim, mas nunca atuam fora das leis da Natureza.”
Imaginamos erradamente que aos
Espíritos só caiba manifestar sua ação por fenômenos extraordinários. Quiséramos
que nos viessem auxiliar por meio de milagres e os figuramos sempre armados de
uma varinha mágica. Por não ser assim é que oculta nos parece a intervenção que
têm nas coisas deste mundo e muito natural o que se executa com o concurso
deles. Assim é que, provocado, por exemplo, o encontro de duas pessoas, que
suporão encontrar-se por acaso; inspirando a alguém a ideia de passar por
determinado lugar; chamando-lhe a atenção para certo ponto, se disso resulta o
que tenham em vista, eles obram de tal maneira que o homem, crente de que
obedece a um impulso próprio, conserva sempre o seu livre-arbítrio. (Allan
Kardec)
60. Tendo, como têm, ação sobre a matéria, podem os
Espíritos provocar certos efeitos, com o objetivo de que se dê um acontecimento?
Por exemplo: um homem tem que morrer; sobe uma escada, a escada se quebra e ele
morre da queda. Foram os Espíritos que quebraram a escada, para que o destino
daquele homem se cumprisse?
“É exato que os Espíritos têm ação sobre a matéria, mas para cumprimento das
leis da Natureza, não para as derrogar, fazendo que, em dado momento, ocorra um
sucesso inesperado e em contrário àquelas leis. No exemplo que figuraste, a
escada se quebrou porque se achava podre, ou por não ser bastante forte para
suportar o peso de um homem. Se era destino daquele homem perecer de tal
maneira, os Espíritos lhe inspirariam a ideia de subir a escada em questão, que
teria de quebrar-se com o seu peso, resultando-lhe daí a morte por um efeito
natural e sem que para isso fosse mister a produção de um milagre.”
61. Tomemos outro exemplo, em que não entre a
matéria em seu estado natural. Um homem tem que morrer fulminado pelo raio.
Refugia-se debaixo de uma árvore. Estala o raio e o mata. Poderá dar-se tenham
sido os Espíritos que provocaram a produção do raio e que o dirigiram para o
homem?
“Dá-se o mesmo que anteriormente. O raio caiu sobre aquela árvore em tal
momento, porque estava nas leis da Natureza que assim acontecesse. Não foi
encaminhado para a árvore, por se achar debaixo dela o homem. A este, sim, foi
inspirada a ideia de se abrigar debaixo de uma árvore sobre a qual cairia o
raio, porquanto a árvore não deixaria de ser atingida, só por não lhe estar
debaixo da fronde o homem.”
62. No caso de uma pessoa mal intencionada disparar
sobre outra um projétil que apenas lhe passe perto sem a atingir, poderá ter
sucedido que um Espírito bondoso haja desviado o projétil?
“Se o indivíduo alvejado não tem que perecer desse modo, o Espírito bondoso
lhe inspirará a ideia de se desviar, ou então poderá ofuscar o que empunha a
arma, de sorte a fazê-lo apontar mal, porquanto, uma vez disparada a arma, o
projétil segue linha que tem de percorrer.”
63. Que se deve pensar das balas encantadas, de que
falam algumas lendas e que fatalmente atingem o alvo?
“Pura imaginação. O homem gosta do maravilhoso e não se contenta com as
maravilhas da Natureza.” a) - Podem os Espíritos que dirigem os acontecimentos
terrenos ter obstada sua ação por Espíritos que queiram o contrário? “O que Deus
quer se executa. Se houver demora na execução, ou lhe surjam obstáculos, é
porque Ele assim o quis.”
64. Não podem os Espíritos levianos e zombeteiros
criar pequenos embaraços à realização dos nossos projetos e transtornar as
nossas previsões? Serão eles, numa palavra, os causadores do que chamamos
pequenas misérias da vida humana?
“Eles se comprazem em vos causar aborrecimentos que representam para vós
provas destinadas a exercitar a vossa paciência. Cansam-se, porém, quando vêem
que nada conseguem. Entretanto, não seria justo, nem acertado, imputar-lhes
todas as decepções que experimentais e de que sois os principais culpados pela
vossa irreflexão. Fica certo de que, se a tua louça se quebra, é mais por desazo
teu do que por culpa dos Espíritos.”
a) - Destes, os que provocam contrariedades obram
impelidos por animosidade pessoal, ou assim procedem contra qualquer, sem motivo
determinado, por pura malícia?
“Por uma e outra coisa. Às vezes os que assim vos molestam são inimigos que
granjeastes nesta ou em precedente existência. Doutras vezes, nenhum motivo há.”
65. Extingue-se-lhes com a vida corpórea a
malevolência dos seres que nos fizeram mal na Terra?
“Muitas vezes reconhecem a injustiça com que procederam e o mal que causaram.
Mas, também, não é raro que continuem a perseguir-vos, cheios de animosidade, se
Deus o permitir, por ainda vos experimentar.”
a) - Pode-se pôr termo a isso? Por que meio?
“Podeis. Orando por eles e lhes retribuindo o mal com o bem, acabarão
compreendendo a injustiça do proceder deles. Demais, se souberdes colocar-vos
acima de suas maquinações, deixar-vos-ão, por verificarem que nada lucram.” A
experiência demonstra que alguns Espíritos continuam em outra existência a
exercer as vinganças que vinham tomando e que assim, cedo ou tarde, o homem paga
o mal que tenha feito a outrem."
66. Têm os Espíritos o poder de afastar de certas
pessoas os males e de favorecê-las com a prosperidade?
“De todo, não; porquanto, há males que estão nos decretos da Providência.
Amenizam-vos, porém, as dores, dando-vos paciência e resignação.
Ficai igualmente sabendo que de vós depende muitas vezes poupar-vos aos males,
ou, quando menos, atenuá-los. A inteligência, Deus vo-la outorgou para que dela
vos sirvais e é principalmente por meio da vossa inteligência que os Espíritos
vos auxiliam, sugerindo-vos ideias propícias ao vosso bem. Mas, não assistem
senão os que sabem assistir-se a si mesmos. Esse o sentido destas palavras:
Buscai e achareis, batei e se vos abrirá.
Sabei ainda que nem sempre é um mal o que vos parece sê-lo. Frequentemente, do
que considerais um mal sairá um bem muito maior. Quase nunca compreendeis isso,
porque só atentais no momento presente ou na vossa própria pessoa.”
67. Podem os Espíritos fazer que obtenham riquezas
os que lhes pedem que assim aconteça?
“Algumas vezes, como prova. Quase sempre, porém, recusam, como se recusa à
criança a satisfação de um pedido inconsiderado.”
a) - São os bons ou os maus Espíritos que concedem
esses favores?
“Uns e outros. Depende da intenção. As mais das vezes, entretanto, os que
concedem são os Espíritos que vos querem arrastar para o mal e que encontram
meio fácil de o conseguirem, facilitando-vos os gozos que a riqueza
proporciona.”
68. Será por influência de algum Espírito que,
fatalmente, a realização dos nossos projetos parece encontrar obstáculos?
“Algumas vezes é isso efeito da ação dos Espíritos; muito mais vezes, porém,
é que andais errados na elaboração e na execução dos vossos projetos. Muito
influem nesses casos a posição e o caráter do indivíduo. Se vos obstinais em ir
por um caminho que não deveis seguir, os Espíritos nenhuma culpa têm dos vossos
insucessos. Vós mesmos vos constituís em vossos maus gênios.”
69. Quando algo de venturoso nos sucede é ao
Espírito nosso protetor que devemos agradecê-lo?
“Agradecei primeiramente a Deus, sem cuja permissão nada se faz; depois aos
bons Espíritos que foram os agentes da sua vontade.”
a) - Que sucederia se nos esquecêssemos de
agradecer?
“O que sucede aos ingratos.” b) - No entanto, pessoas há que não pedem nem
agradecem e às quais tudo sai bem! “Assim é, de fato, mas importa ver o fim.
Pagarão bem caro essa felicidade de que não são merecedores, pois quanto mais
houverem recebido, tanto maiores contas terão que prestar."
70. São devidos a causas fortuitas, ou, ao
contrário, têm todos um fim providencial, os grandes fenômenos da Natureza, os
que se consideram como perturbação dos elementos?
“Tudo tem uma razão de ser e nada acontece sem a permissão de Deus.”
a) - Objetivam sempre o homem esses fenômenos?
“Às vezes têm, como imediata razão de ser, o homem. Na maioria dos casos,
entretanto, têm por único motivo o restabelecimento do equilíbrio e da harmonia
das forças físicas da Natureza.”
b) - Concebemos perfeitamente que a vontade de Deus
seja a causa primária, nisto como em tudo; porém, sabendo que os Espíritos
exercem ação sobre a matéria e que são os agentes da vontade de Deus,
perguntamos se alguns dentre eles não exercerão certa influência sobre os
elementos para os agitar, acalmar ou dirigir?
“Mas evidentemente. Nem poderia ser de outro modo. Deus não exerce ação
direta sobre a matéria. Ele encontra agentes dedicados em todos os graus da
escala dos mundos.”
71. A mitologia dos antigos se fundava inteiramente
em ideias espíritas, com a única diferença de que consideravam os Espíritos como
divindades. Representavam esses deuses ou esses Espíritos com atribuições
especiais. Assim, uns eram encarregados dos ventos, outros do raio, outros de
presidir ao fenômeno da vegetação, etc. Semelhante crença é totalmente
destituída de fundamento?
“Tão pouco destituída é de fundamento, que ainda está muito aquém da
verdade.” a) - Poderá então haver Espíritos que habitem o interior da Terra e
presidam aos fenômenos geológicos? “Tais Espíritos não habitam positivamente a
Terra. Presidem aos fenômenos e os dirigem de acordo com as atribuições que têm.
Dia virá em que recebereis a explicação de todos esses fenômenos e os
compreendereis melhor.”
72. Formam categoria especial no mundo espírita os
Espíritos que presidem aos fenômenos da Natureza? Serão seres à parte, ou
Espíritos que foram encarnados como nós?
“Que foram ou que o serão.”
a) - Pertencem esses Espíritos às ordens superiores
ou às inferiores da hierarquia espírita?
“Isso é conforme seja mais ou menos material, mais ou menos inteligente o
papel que desempenhem. Uns mandam, outros executam. Os que executam coisas
materiais são sempre de ordem inferior, assim entre os Espíritos, como entre os
homens.”
73. A produção de certos fenômenos, das tempestades,
por exemplo, é obra de um só Espírito, ou muitos se reúnem, formando grandes
massas, para produzi-los?
“Reúnem-se em massas inumeráveis.”
74. Os Espíritos que exercem ação nos fenômenos da
Natureza operam com conhecimento de causa, usando do livre-arbítrio, ou por
efeito de instintivo ou irrefletido impulso?
“Uns sim, outros não. Estabeleçamos uma comparação. Considera essas miríades
de animais que, pouco a pouco, fazem emergir do mar ilhas e arquipélagos. Julgas
que não há aí um fim providencial e que essa transformação da superfície do
globo não seja necessária à harmonia geral? Entretanto, são animais de ínfima
ordem que executam essas obras, provendo às suas necessidades e sem suspeitarem
de que são instrumentos de Deus. Pois bem, do mesmo modo, os Espíritos mais
atrasados oferecem utilidade ao conjunto. Enquanto se ensaiam para a vida, antes
que tenham plena consciência de seus atos e estejam no gozo pleno do
livre-arbítrio, atuam em certos fenômenos, de que inconscientemente se
constituem os agentes. Primeiramente, executam. Mais tarde, quando suas
inteligências já houverem alcançado um certo desenvolvimento, ordenarão e
dirigirão as coisas do mundo material. Depois, poderão dirigir as do mundo
moral. É assim que tudo serve, que tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo
primitivo até o arcanjo, que também começou por ser átomo. Admirável lei de
harmonia, que o vosso acanhado espírito ainda não pode apreender em seu
conjunto!”
75. Algo de verdade haverá nos pactos com os maus
Espíritos?
“Não, não há pactos. Há, porém, naturezas más que simpatizam com os maus
Espíritos. Por exemplo: queres atormentar o teu vizinho e não sabes como hás de
fazer. Chamas então por Espíritos inferiores que, como tu, só querem o mal e
que, para te ajudarem, exigem que também os sirvas em seus maus desígnios. Mas,
não se segue que o teu vizinho não possa livrar-se deles por meio de uma
conjuração oposta e pela ação da sua vontade. Aquele que intenta praticar uma
ação má, pelo simples fato de alimentar essa intenção, chama em seu auxílio maus
Espíritos, aos quais fica então obrigado a servir, porque dele também precisam
esses Espíritos, para o mal que queiram fazer. Nisto é que consiste o pacto.” O
fato de o homem ficar, às vezes, na dependência dos Espíritos inferiores nasce
de se entregar aos maus pensamentos que estes lhe sugerem e não de estipulação
quaisquer que com eles faça. O pacto, no sentido vulgar do termo, é uma alegoria
representativa da simpatia existente entre um indivíduo de natureza má e
Espíritos malfazejos.
76. Qual o sentido das lendas fantásticas em que
figuram indivíduos que teriam vendido suas almas a Satanás para obterem certos
favores?
“Todas as fábulas encerram um ensinamento e um sentido moral. O vosso erro
consiste em tomá-las ao pé da letra. Isso a que te referes é uma alegoria, que
se pode explicar desta maneira: aquele que chama em seu auxílio os Espíritos,
para deles obter riquezas, ou qualquer outro favor, rebela-se contra a
Providência; renuncia à missão que recebeu e às provas que lhe cumpre suportar
neste mundo. Sofrerá na vida futura as consequências desse ato. Não quer isto
dizer que sua alma fique para sempre condenada à desgraça. Mas, desde que, em
lugar de se desprender da matéria, nela cada vez se enterra mais, não terá, no
mundo dos Espíritos, a satisfação de que haja gozado na Terra, até que tenha
resgatado a sua falta, por meio de novas provas, talvez maiores e mais penosas.
Coloca-se, por amor dos gozos materiais, na dependência dos Espíritos impuros.
Estabelece-se assim, tacitamente, entre estes e o delinquente, um pacto que o
leva à sua perda, mas que lhe será sempre fácil romper, se o quiser firmemente,
granjeando a assistência dos bons Espíritos.”
77. Pode um homem mau, com o auxílio de um mau
Espírito que lhe seja dedicado, fazer mal ao seu próximo? “Não; Deus não o
permitiria.”
78. Que se deve pensar da crença no poder, que
certas pessoas teriam, de enfeitiçar?
“Algumas pessoas dispõem de grande força magnética, de que podem fazer mau
uso, se maus forem seus próprios Espíritos, caso em que possível se torna serem
secundados por outros Espíritos maus. Não creias, porém, num pretenso poder
mágico, que só existe na imaginação de criaturas supersticiosas, ignorantes das
verdadeiras leis da Natureza. Os fatos que citam, como prova da existência desse
poder, são fatos naturais, mal observados e sobretudo mal compreendidos.”
79. Que efeito podem produzir as fórmulas e práticas
mediante as quais pessoas há que pretendem dispor do concurso dos Espíritos?
“O efeito de torná-las ridículas, se procedem de boa-fé. No caso contrário, são
tratantes que merecem castigo. Todas as fórmulas são mera charlatanaria. Não há
palavra sacramental nenhuma, nenhum sinal cabalístico, nem talismã, que tenha
qualquer ação sobre os Espíritos, porquanto estes só são atraídos pelo
pensamento e não pelas coisas materiais.” a) - Mas, não é exato que alguns
Espíritos têm ditado, eles próprios, fórmulas cabalísticas? “Efetivamente,
Espíritos há que indicam sinais, palavras estranhas, ou prescrevem a prática de
atos, por meio dos quais se fazem os chamados conjuros. Mas, ficai certos de que
são Espíritos que de vós outros escarnecem e zombam da vossa credulidade.”
80. Não pode aquele que, com ou sem razão, confia no
que chama a virtude de um talismã, atrair um Espírito, por efeito mesmo dessa
confiança, visto que, então, o que atua é o pensamento, não passando o talismã
de um sinal que apenas lhe auxilia a concentração?
“É verdade; mas, da pureza da intenção e da elevação dos sentimentos depende
a natureza do Espírito que é atraído. Ora, muito raramente aquele que seja
bastante simplório para acreditar na virtude de um talismã deixará de colimar um
fim mais material do que moral. Qualquer, porém, que seja o caso, essa crença
denuncia uma inferioridade e uma fraqueza de ideias que favorecem a ação dos
Espíritos imperfeitos e escarninhos.”
O Espiritismo e o
magnetismo nos dão a chave de uma imensidade de fenômenos sobre os quais a
ignorância teceu um sem-número de fábulas, em que os fatos se apresentam
exagerados pela imaginação. O conhecimento lúcido dessas duas ciências que, a
bem dizer, formam uma única, mostrando a realidade das coisas e suas verdadeiras
causas, constitui o melhor preservativo contra as ideias supersticiosas, porque
revela o que é possível e o que é impossível, o que está nas leis da Natureza e
o que não passa de ridícula crendice. (Allan
Kardec)
81. Têm algumas pessoas, verdadeiramente, o poder de
curar pelo simples contacto?
“A força magnética pode chegar até aí, quando secundada pela pureza dos
sentimentos e por um ardente desejo de fazer o bem, porque então os bons
Espíritos lhe vêm em auxílio. Cumpre, porém, desconfiar da maneira pela qual
contam as coisas pessoas muito crédulas e muito entusiastas, sempre dispostas a
considerar maravilhoso o que há de mais simples e mais natural. Importa
desconfiar também das narrativas interesseiras, que costumam fazer os que
exploram, em seu proveito, a credulidade alheia.”
82. Podem a bênção e a maldição atrair o bem e o mal
para aquele sobre quem são lançados?
“Deus não escuta a maldição injusta e culpado perante ele se torna o que a
profere. Como temos os dois gênios opostos, o bem e o mal, pode a maldição
exercer momentaneamente influência, mesmo sobre a matéria. Tal influência,
porém, só se verifica por vontade de Deus como aumento de prova para aquele que
é dela objeto. Demais, o que é comum é serem amaldiçoados os maus e abençoados
os bons. Jamais a bênção e a maldição podem desviar da senda da justiça a
Providência, que nunca fere o maldito, senão quando mau, e cuja proteção não
acoberta senão aquele que a merece.”
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Extraído de:
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
Capítulo IX - 2ª Parte
DA INTERVENÇÃO DOS ESPÍRITOS
NO MUNDO CORPORAL
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